Eventos em 2026: estratégia, dados e experiência redefinem o setor
Publicado em 31 de agosto de 2026 · 9 min de leitura

O mercado de eventos cresce e se torna mais exigente: já não basta operar bem, é preciso demonstrar resultados, gerir riscos e criar experiências relevantes para cada público.
Introdução
O mercado de eventos atravessa uma fase de expansão, mas também de maior exigência. O crescimento do número de encontros corporativos, congressos científicos e iniciativas internacionais amplia as oportunidades para organizadores, destinos e fornecedores. Ao mesmo tempo, já não basta entregar uma operação eficiente: é preciso demonstrar resultados, reduzir impactos, lidar com riscos e criar experiências relevantes para diferentes públicos.
Os dados reunidos pela pesquisa e curadoria do Blog Anacruse mostram um setor cada vez mais conectado a negócios, turismo, ciência, inovação e desenvolvimento econômico. Em 2025, o mercado brasileiro de eventos corporativos movimentou aproximadamente R$ 142 bilhões, enquanto São Paulo recebeu 1.511 eventos de grande porte, com impacto econômico estimado em R$ 14 bilhões.
Nesse cenário, gestores e organizadores precisam atuar com uma visão mais ampla. O evento deixou de ser apenas uma entrega pontual e passou a funcionar como uma plataforma de relacionamento, geração de oportunidades, disseminação de conhecimento e posicionamento institucional.

O crescimento do mercado exige mais planejamento
São Paulo registrou, em 2025, crescimento de 22% no número de eventos de grande porte em comparação com o ano anterior. Foram considerados encontros com pelo menos 700 participantes, entre feiras, congressos e convenções.
Esse movimento acompanha a expansão do mercado corporativo brasileiro e reforça o papel do turismo de negócios. Para empresas e entidades, eventos presenciais continuam sendo instrumentos importantes de relacionamento e influência. Para os destinos, representam ocupação hoteleira, movimentação de serviços, geração de empregos e atração de investimentos.
O crescimento, porém, aumenta a concorrência e eleva o nível de cobrança. Organizadores precisam responder a perguntas cada vez mais objetivas:
- Qual é o objetivo estratégico do evento?
- Que resultados serão considerados sucesso?
- Como o investimento será justificado?
- Quais oportunidades comerciais serão geradas?
- Qual será o impacto para o destino e para a comunidade local?
- Como a experiência do participante será acompanhada?
A gestão baseada em indicadores passa a ser indispensável. Número de inscritos e taxa de ocupação continuam relevantes, mas devem ser complementados por métricas como leads qualificados, reuniões realizadas, oportunidades comerciais, conversões, satisfação dos participantes e impacto econômico.
Eventos como plataformas de negócios
O crescimento dos formatos de business matching mostra que o networking pode ser planejado com método. Em uma rodada de negócios promovida em São Paulo, foram realizadas 684 reuniões B2B entre compradores e fornecedores. Já a Feira EBS 2025 registrou 12.400 reuniões durante o Speed Meeting, com 1.600 visitantes qualificados e 90 expositores.
Esses números indicam uma mudança importante: o valor de um evento não está apenas na quantidade de pessoas presentes, mas na qualidade das conexões produzidas.
Para estruturar uma rodada de negócios eficiente, o gestor deve considerar:
- 01Definição clara do público – compradores, fornecedores e parceiros precisam estar alinhados ao objetivo da iniciativa.
- 01Curadoria dos participantes – a seleção deve priorizar compatibilidade de interesses e potencial de negócios.
- 01Agenda organizada – reuniões curtas, horários precisos e intervalos adequados aumentam a produtividade.
- 01Tecnologia de apoio – plataformas podem facilitar inscrições, agendas, recomendações e acompanhamento.
- 01Follow-up estruturado – o relacionamento não termina no encerramento do evento.
- 01Medição de resultados – conexões qualificadas e oportunidades geradas devem ser monitoradas.
Essa lógica também se aplica a congressos, convenções e feiras. O encontro presencial ganha força quando é apoiado por dados e por uma jornada cuidadosamente desenhada.

O Brasil amplia sua presença internacional
A estratégia brasileira de captação de congressos e eventos internacionais ganhou relevância. Segundo os dados reunidos pela ABEOC, eventos internacionais foram realizados em 42 cidades brasileiras em 2024, mantendo o país na liderança latino-americana em número de encontros desse tipo.
Congressos científicos e médicos têm papel central nesse processo. Historicamente, mais de 60% das captações nacionais estão associadas a essas áreas. Ciência e pesquisa representam mais de 26% dos congressos realizados, enquanto saúde, clima, sustentabilidade e energia concentram encontros de grande porte e alcance internacional.
A realização do Congresso COCAL 2026, em Fortaleza, com representantes de aproximadamente 18 países, reforça a capacidade de destinos brasileiros receberem eventos com forte dimensão internacional.
Para conquistar um congresso, entretanto, não basta apresentar um espaço disponível. A candidatura precisa demonstrar que o destino oferece:
- infraestrutura adequada;
- conectividade aérea e mobilidade urbana;
- capacidade hoteleira;
- apoio institucional;
- segurança;
- fornecedores qualificados;
- soluções de acessibilidade;
- compromisso com sustentabilidade;
- potencial de geração de legado.
Materiais como *bidding books*, vídeos, mapas de infraestrutura e estudos de impacto ajudam a transformar uma candidatura em uma proposta competitiva. A captação passa a ser uma atividade integrada entre convention bureaus, órgãos públicos, entidades setoriais, empresas e organizadores profissionais.
Sustentabilidade precisa sair do discurso
A sustentabilidade vem sendo incorporada à estratégia e à governança dos eventos. A IAPCO, por exemplo, estruturou uma agenda específica sobre o tema, com estratégia, premiação e desenvolvimento de um toolkit para apoiar organizadores profissionais de congressos.
O reconhecimento concedido pela entidade considera aspectos como impacto ambiental, impacto social, educação, inovação e legado. Essa abordagem mostra que sustentabilidade não se limita à redução de resíduos ou à substituição de materiais impressos. Ela deve ser analisada em todo o ciclo do evento.
Um plano consistente pode incluir:
Antes do evento
- escolha de fornecedores com critérios ambientais e sociais;
- definição de metas de resíduos, água e emissões;
- priorização de soluções digitais;
- seleção de alimentos e materiais de menor impacto;
- planejamento de acessibilidade;
- contratação de fornecedores e profissionais locais.
Durante a realização
- coleta seletiva e destinação adequada;
- redução do uso de descartáveis;
- comunicação das práticas adotadas;
- transporte coletivo ou compartilhado;
- inclusão de comunidades e empreendedores regionais;
- monitoramento dos indicadores definidos.
Depois do encerramento
- avaliação dos resultados;
- divulgação transparente dos dados;
- registro das boas práticas;
- identificação do legado produzido;
- elaboração de recomendações para próximas edições.
A chamada Carta de Belém também foi destacada na pesquisa como uma iniciativa voltada a compromissos públicos, métricas e governança no turismo brasileiro. Para organizadores, a principal lição é que a sustentabilidade deve ser planejada desde a concepção e comprovada por evidências.
Instabilidade global exige planos de contingência
Eventos internacionais estão mais expostos a fatores externos. Questões geopolíticas, restrições de viagem, instabilidade regulatória, problemas de conectividade e riscos de segurança podem afetar diretamente a realização de um congresso.
Pesquisa divulgada pela IAPCO em 2026 apontou que 73,84% dos respondentes tiveram sua capacidade de planejar ou realizar reuniões internacionais afetada por conflitos globais. Em 2025, o índice havia sido de 53,92%.
Esse cenário exige que o planejamento inclua uma matriz de riscos atualizada e responsabilidades bem definidas. Entre os pontos essenciais estão:
- análise do ambiente político e regulatório;
- avaliação de vistos, fronteiras e conectividade;
- fornecedores alternativos;
- cláusulas contratuais de adiamento e cancelamento;
- seguros adequados;
- protocolos médicos;
- plano de comunicação de crise;
- segurança física, digital e reputacional;
- alternativas híbridas ou digitais;
- critérios objetivos para tomada de decisão.
O plano de contingência não deve ser produzido apenas quando surge uma crise. Ele precisa ser construído junto com o projeto principal, testado e revisado até o encerramento do evento.
Congressos científicos devem priorizar aprendizagem
A transformação dos congressos médicos e científicos também merece atenção. O 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral, promovido pela Associação Médica Brasileira, reuniu aproximadamente 4.200 participantes, cerca de 400 conferencistas e representantes de 54 especialidades médicas.
A programação combinou aulas, painéis, discussões de casos, simpósios e espaços de interação. As chamadas “Arenas Silenciosas” ofereceram apresentações objetivas e próximas do público, abordando temas como políticas públicas, educação médica, inteligência artificial, inovação, carreira e planejamento financeiro.
O modelo revela que o participante busca mais do que uma sequência de palestras. Ele quer conteúdo aplicável, troca com especialistas e oportunidades de relacionar diferentes áreas do conhecimento.
Algumas diretrizes para desenhar congressos mais efetivos incluem:
- alternar exposição, debate e atividades práticas;
- utilizar casos, simulações e discussões orientadas;
- criar espaços menores para interação;
- organizar trilhas por perfil e interesse;
- disponibilizar conteúdos sob demanda;
- integrar temas emergentes, como inteligência artificial e saúde digital;
- tratar ética, equidade e acesso como parte do conteúdo;
- avaliar a aprendizagem e não apenas a satisfação.
O World Cancer Congress 2026, organizado pela UICC, também evidencia essa tendência ao reunir temas como prevenção, equidade, pesquisa, inovação, inteligência artificial, genômica, imunologia e novas tecnologias em oncologia.
Pessoas e competências serão fatores decisivos
A evolução do setor depende da formação de profissionais preparados para um ambiente mais complexo. Iniciativas como o programa de líderes emergentes lançado pela IAPCO e pela FIEXPO, além do Future Leaders promovido no contexto do COCAL 2026, mostram a prioridade dada à capacitação de jovens talentos.
A indústria de eventos precisa de profissionais capazes de combinar produção, marketing, finanças, dados e relacionamento. Também são importantes competências como:
- inteligência artificial e fluência digital;
- análise e interpretação de dados;
- sustentabilidade;
- negociação;
- comunicação intercultural;
- gestão de crises;
- experiência do participante;
- domínio de idiomas;
- visão internacional;
- capacidade de trabalhar em equipes multidisciplinares.
A aproximação entre universidades, associações e empresas pode contribuir para reduzir a distância entre formação acadêmica e necessidades práticas do mercado. Da mesma forma, planos de carreira e programas de mentoria ajudam a tornar o setor mais atrativo e a preservar talentos.
Conclusão
Os eventos de 2026 revelam um setor mais estratégico, conectado e profissionalizado. O crescimento do mercado brasileiro abre espaço para novos negócios, mas também exige maior capacidade de planejamento, mensuração e adaptação.
Para organizadores e gestores, algumas prioridades se destacam: definir objetivos claros, acompanhar indicadores, qualificar o networking, preparar candidaturas competitivas, incorporar sustentabilidade, estruturar planos de contingência e investir na experiência educacional e relacional do participante.
O futuro dos eventos presenciais não depende apenas de reunir pessoas. Depende de criar valor antes, durante e depois do encontro. Quando combinam dados, curadoria, conteúdo relevante, responsabilidade socioambiental e capacidade de resposta a cenários adversos, os eventos deixam de ser ações isoladas e passam a funcionar como plataformas de negócios, conhecimento e desenvolvimento.
Fontes utilizadas
- ABEOC Brasil – informações sobre o mercado de eventos corporativos, turismo de negócios, captação internacional, COCAL 2026, Future Leaders e sustentabilidade. https://abeoc.org.br/
- Portal Radar / Barômetro UBRAFE-SPTuris – dados sobre eventos realizados em São Paulo. https://portalradar.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Barometro-UBRAFE-SPTuris.pdf
- ICCA – rankings e análises sobre reuniões associativas e destinos internacionais. https://www.iccaworld.org/
- IAPCO – sustentabilidade, riscos geopolíticos, formação profissional e desenvolvimento do setor. https://www.iapco.org/
- Associação Médica Brasileira (AMB) – informações sobre o Congresso Brasileiro de Medicina Geral e seus formatos educacionais. https://amb.org.br/
- UICC – programação e informações sobre o World Cancer Congress 2026. https://www.uicc.org/
- Ediman – conteúdos e iniciativas de inteligência comercial para o mercado MICE. https://www.ediman.it/en/
