Sobre ritmos, gêneros e estilos

    Neste texto faremos uma breve abordagem sobre as diferenças conceituais entre ritmo, gênero e estilo musical, direcionando o estudo para o campo da música popular brasileira, em suas múltiplas manifestações. Esses conceitos muitas vezes se confundem e se inter-relacionam, tornando-se muitas vezes um assunto complexo e polêmico, havendo margem à diferentes interpretações. Entretanto, o objetivo principal desse texto é ir além de simplesmente dar as definições e explanações exatas sobre esses conceitos musicais, mas sim aproveitar para falarmos um pouco de música, mais especificamente da música brasileira. Como sabemos, o Brasil é um incrível manancial de manifestações musicais nas quais estão presentes muitos instrumentos, ritmos, danças, estilos e gêneros que fazem parte de nossa cultura e de nossa história.

    Sobre ritmos, gêneros e estilos

    Quando ouvimos uma música, encontramos uma complexa teia de elementos sobre os quais podemos colocar o foco da nossa atenção, dentre eles: quais são os instrumentos que estão presentes, como é o arranjo, o que diz a letra (se houver), como é o ritmo, como é a dança, de onde vem essa música, que grupo representa ou pertence, qual o estilo, como é a interpretação, como são os acordes, de onde vem essa música, dentre muitos outros aspectos que podemos refletir a respeito de determinada música.

    Vamos iniciar nosso texto falando um pouco sobre os ritmos brasileiros e sobre a percussão popular tão presente em nossa cultura. Em cada canto do país podemos encontrar a nossa herança Africana da percussão, do ritmo e da dança. Alguns ritmos “afro-brasileiros”- como o jongo, o ijexá, o congo de ouro, o samba de Angola, o batuque de umbigada, o tambor de crioula, o Moçambique, entre muitos outros – antecedem os chamados “gêneros populares urbanos” como o samba, o maxixe, a marcha, o choro, o baião, e outros, que nasceram a partir da abolição dos escravos no final do século XIX. Podemos encontrar esses ritmos muito presentes ainda hoje em várias manifestações populares do Brasil e festas tradicionais que mantém acesa a chama de nossa tradição Afro. Para ilustrar, podemos citar o livro “Os Sons dos Negros no Brasil”, no qual o historiador José Ramos Tinhorão descreve um pouco dessa tradição da percussão e da dança, a qual os portugueses genericamente chamava de batuque:

    “já na terceira década dos anos seiscentos, os escravos africanos conseguiam, em certas ocasiões, exercitar seus ritmos e danças (e, quase certamente, embora de forma dissimulada, também seus rituais religiosos), através de manifestações à base de ruidosa percussão, que os portugueses definiam genericamente sob o nome de batuque”(Tinhorão, 2008, p.36).

     

    Veja por exemplo esse pequeno documentário sobre o Jongo – um dos precursores do samba:

     

     

    Apesar da música popular brasileira ter se desenvolvido sobre as bases rítmicas da tradição africana, um gênero musical não se traduz apenas por seu ritmo, mas por uma complexa gama de elementos sócio históricos e musicais que iremos tentar mapear a seguir.

    O termo “gênero”, nos remete à generalização, isto é, quando falamos em gênero musical estamos falando de um termo que engloba, ou, generaliza determinado tipo de manifestação musical em toda sua possível amplitude. Vamos tomar como exemplo o Samba. O Samba é um gênero musical que possui inúmeras facetas – dentre elas o samba de roda, o samba choro, o samba enredo das Escolas de Samba, o samba canção, a bossa nova, o samba jazz, o samba rock, entre outros- que retratam diferentes períodos, regiões e grupos sociais. Portanto, para que possamos caracterizar uma manifestação musical como gênero, e ainda, determinar os variados estilos dentro desse gênero, não podemos nos basear apenas nos fatores que dizem respeito à linguagem musical, mas temos que considerar também os fatores históricos, geográficos, sociais, étnicos, econômicos e culturais. Portanto, quando falamos “Samba” estamos falando de um termo que generaliza uma infinidades de diferentes nuances, particularidades, épocas, grupos, jeitos de tocar, instrumentações, regiões, jeitos de compor, de se expressar, de dançar, etc. Essas diferentes características dentro do gênero é o que chamamos de “Estilo”. Podemos citar como exemplo o gênero maracatu, dentro do qual podemos encontrar inúmeras “nações”, com seus diferentes “baques”, rituais, danças, toques, andamentos e instrumentos.

    Veja um samba de roda da Bahia

    E agora o samba interpretado por Maria Rita:

    https://www.youtube.com/watch?v=ac_iEm4fpmQ

     

    Emprestando alguns aspectos dentro do campo da linguística, a autora Helena Hathsue Nagamine Brandão discute as essas relações entre gênero e estilo dizendo:

    “Onde há estilo há gênero. O vínculo entre estilo e gênero é indissolúvel, orgânico. E isso se percebe claramente quando se analisa a questão sob a ótica da funcionalidade do gênero em que cada esfera da atividade e da comunicação humana tem seu estilo peculiar. Cada esfera conhece seus gêneros, apropriados à sua especificidade, aos quais correspondem determinados estilos (BRANDÃO, 1997).

    Trazendo agora essas discussões para dentro do campo dos estudos em música popular, podemos dizer que um gênero engloba diversos estilos. Enquanto o gênero se mostra relativamente “estável” e amplo, o estilo se mostra peculiar, característico, idiossincrático. Apelando ao The New Groove- dictionary of music, encontramos a seguinte definição de estilo:

    “Estilo é um termo que denota a maneira do discurso; modo de expressão; mais particularmente a maneira em que cada trabalho de arte é executado. Nas discussões em música o termo ganhou especiais dificuldades; ele pode ser usado para denotar as características de um compositor individualmente, de um período, de uma área geográfica ou centro, ou de uma sociedade ou função social”[1].

    Podemos também analisar o surgimento dos novos gêneros ou estilos pela ótica das rupturas ocorridas ao longo da trajetória da música ocidental. Como cita Fabbri: “um novo gênero se forma a partir de transgressões nas regras de um ou mais gêneros anteriores (FABBRI, 1981, p.61). Para ficar mais claro podemos citar como exemplo algumas dessas transgressões e rupturas ocorridas na história da música nos mais diversos âmbitos. Dentro da chamada “música erudita européia” por exemplo, o romantismo transgride as progressões harmônicas do período clássico, expandindo suas fronteiras; por sua vez o dodecafonismo rompe com o estilo romântico, construindo uma outra maneira da manifestação musical. O mesmo se passa no jazz, quando Charlie Parker e Dizzie Gillespie rasgam os limites do swing com o novo “Be Bop”, por conseguinte, Miles Davis grava o Birth of the Cool contrariando a corrente virtuosística do próprio Bop. Já na música popular brasileira, podemos citar por exemplo a mudança do padrão rítmico do samba feita pelos “bambas” do Estácio no final da década de 30 diferenciando-se do “samba-maxixe”, ou, a gravação do disco Chega de Saudade em 1956, na qual João Gilberto registra as inovações no modo de cantar e de tocar violão trazidas pela bossa-nova, rompendo com o samba-canção em voga nos anos 50.

    Swing

    Be bop

    Cool Jazz

    Portanto, são as rupturas, as contradições e os diálogos internos que geram novos gêneros e novos estilos. Citando novamente Bakhtin:

    Embora cada gênero tenha suas características específicas, um gênero não é, necessariamente, uma “fôrma” que se impõe ao falante/escritor (no nosso caso “o compositor”). Enquanto conjunto de traços marcados pela regularidade, pela repetibilidade, o gênero é relativamente “estável”, mas essa estabilidade é constantemente ameaçada por forças que atuam sobre as restrições genéricas, forças de caráter social, cultural e individual (estilísticas) que determinam ou mudanças num gênero, ou seu apagamento, ou sua revivescência. Essa tensão entre estabilidade x variabilidade se faz marcar de maneira específica nos diferentes gêneros, criando assim novos estilos.  (BAKHTIN, 1992).

     

    Voltando então à música popular brasileira, podemos aplicar a afirmação de Bakhtin refletindo sobre como “as forças de caráter social, cultural e individual”, geraram os novos estilos na trajetória de nossa música. Alguns “marcos” na história da MPB podem dar pistas deste comportamento (social, cultural e individual). Como por exemplo: as composições da “revolucionária” Chiquinha Gonzaga no início do século XX; a gravação do samba Pelo Telefone em 1917 por Donga; a produção da extensa obra de Noel Rosa da Vila Isabel que morreu aos 26 anos de idade; o sucesso de Carmen Miranda nos Estados Unidos; o boom da rádio Nacional nos anos 30 e 40; a gravação do disco Chega de Saudade em 1956; os Festivais da Canção na década de 60 e 70; a Tropicália; o Clube da Esquina; o Rock dos 80´; o pop dos 90´ e todas as tendências mercadológicas que emplacaram nos últimos anos gerando imenso lucro às gravadoras como o sertanejo, o pagode, o axé e o “forró universitário”.

    João Gilberto – Chega de Saudade

    Permeando toda esta trajetória da música popular, podemos pelo menos citar dois fatores determinantes para o entendimento desta história: a intermediação da indústria fonográfica na consolidação dos inúmeros gêneros e estilos; e a “canção” como linha mestra que perpassa quase todos os gêneros populares da música brasileira. No livro “O século da Canção”, o autor Luiz Tatit cita logo na introdução:

    Nossa canção incorporou ao longo desse período (o séc. XX) uma grande variedade de fisionomias que, embora não trouxesse qualquer obstáculo para o pronto reconhecimento da maioria das ouvintes, tornou-se trabalhosa sua definição artística e, acima de tudo, sua apreciação crítica. Comportou-se como um organismo mutante que ludibriava os observadores por jamais se apresentar com o mesmo aspecto. Onde o comentarista procurava coerência melódica, encontrava fragmentos entoativos independentes. Onde procurava soluções poéticas, deparava-se com a fala crua. Quando examinava o ritmo de fundo, a informação estava na melodia de frente. Quando focalizava o arranjo, este era apenas um recurso a serviço do canto. Quando se esperava maior complexidade harmônica, reentravam em cena os três acordes básicos e nem por isso a canção perdia seu encanto. Se o julgamento recaía sobre o conteúdo da letra, vingavam as músicas para dançar. Enfim, sem contar com um mínimo de consenso sobre o que a define como expressão artística, a canção brasileira converteu-se em um território livre, muito frequentado por artistas híbridos que não se consideravam nem músicos, nem poetas, nem cantores, mas um pouco de tudo isso e mais alguma coisa (TATIT, 2004).

    Chico Buarque – Construção

    Para finalizar esse texto, podemos relacionar também a criação dos novos gêneros e estilos à problemática da categorização dos estilos musicais nas “prateleiras” das lojas de discos. A cada ano surgem inúmeros estilos musicais que necessitam serem “enquadrados” em uma categoria de venda. Muito interessante se torna os novos termos utilizados pela indústria, como por exemplo o “sertanejo universitário”. O termo “universitário” tenta dar legitimidade e status a um “estilo” que antes poderia ser caracterizado como piegas ou “brega”. Contudo, necessitaríamos uma análise mais profunda sobre as manipulações e categorizações feitas pela indústria fonográfica para que conseguíssemos um maior entendimento sobre o surgimento desses novos gêneros.

    A intenção deste texto foi refletir, discutir e dar uma visão geral sobre as questões envolvidas neste tema “gêneros e estilos”, buscando abordar o assunto sob uma perspectiva da música popular como manifestação do homem em seus vários contextos sócio históricos, assim como, rever o vínculo inevitável da música popular brasileira com a indústria fonográfica.

    https://www.youtube.com/watch?v=jDnvbN6-IcU

     

    Equipe Anacruse

    Autor: Fabio Bergamini

     

     

     

     

    [1] “Stile: a term denoting manner of discourse; mode of expression; more particulary the manner in a work of art is executed. In the discussion of music the term raises special difficulties; it may be used to denote music characteristic of an individual composer, of a period, of a geographical area or centre, or a society or social function. (The New Groove Dictionary, p. 638, vol.24, second edition)