O novo profissional de eventos: dados, inteligência artificial, sustentabilidade e gestão de riscos
Publicado em 04 de setembro de 2026 · 9 min de leitura

O novo profissional de eventos: dados, inteligência artificial, sustentabilidade e gestão de riscos ## Introdução O mercado de eventos atravessa um novo ciclo de expansão e profiss…
Introdução
O mercado de eventos atravessa um novo ciclo de expansão e profissionalização. Congressos, feiras, encontros corporativos e iniciativas associativas voltam a ocupar um papel estratégico na geração de negócios, na circulação de conhecimento e no desenvolvimento dos destinos.
Ao mesmo tempo, organizar um evento tornou-se uma tarefa mais complexa. Além de garantir logística, programação e experiência ao participante, os profissionais precisam lidar com análise de dados, inteligência artificial, metas de sustentabilidade, privacidade, compliance e riscos geopolíticos.
Para organizadores, produtores e gestores, o desafio não é apenas acompanhar o crescimento do setor, mas desenvolver uma atuação mais integrada e estratégica. O novo profissional de eventos é aquele capaz de conectar objetivos institucionais, eficiência operacional, relacionamento, impacto econômico e responsabilidade.

O crescimento do MICE amplia a responsabilidade dos organizadores
O segmento MICE — reuniões, incentivos, congressos e exposições — vem ganhando relevância no Brasil. Segundo dados apresentados pela ABEOC, São Paulo recebeu 1.511 eventos de grande porte em 2025, um crescimento de 22% em relação ao ano anterior. Esses eventos, com pelo menos 700 participantes, geraram impacto econômico estimado em R$ 14 bilhões.
Os números ajudam a demonstrar que os eventos presenciais não são apenas compromissos no calendário de empresas e entidades. Eles movimentam hotéis, restaurantes, transportes, fornecedores, espaços de eventos e diversos setores da economia local.
A Embratur também aponta o turismo de negócios e eventos como uma das prioridades para 2026. Entre os efeitos esperados estão a atração de visitantes com maior poder de consumo, o aumento do tempo de permanência nos destinos e a redução da sazonalidade turística.
Esse cenário modifica o papel do organizador. A atuação deixa de se concentrar exclusivamente na execução e passa a envolver decisões sobre posicionamento, escolha de destino, geração de valor, relacionamento institucional e legado territorial.
Destinos fora do eixo tradicional ganham espaço
A disputa pela captação de eventos tornou-se mais intensa entre cidades brasileiras. Embora São Paulo mantenha forte protagonismo, outros destinos vêm demonstrando capacidade de atrair congressos e encontros internacionais.
Em 2024, o Brasil manteve a liderança latino-americana em eventos internacionais, com realizações em 42 cidades. O Centro de Convenções Salvador, por exemplo, tinha 64 eventos confirmados para 2026, com público estimado superior a 600 mil visitantes.
A realização do 42º Congresso COCAL, em Fortaleza, reforça esse movimento. O encontro reuniu representantes de 18 países entre 1º e 3 de julho de 2026 e contribuiu para apresentar o Ceará a profissionais, compradores e tomadores de decisão do mercado MICE.
Um evento desse porte produz efeitos que ultrapassam seus dias oficiais. A infraestrutura, os fornecedores, a hospitalidade, a cultura e a conectividade do destino passam a ser avaliados pelos participantes. O congresso também pode estimular novas candidaturas, parcerias comerciais e oportunidades de negócios.
A iniciativa Future Leaders, associada ao COCAL 2026, evidencia ainda a importância da formação de novas lideranças. A programação voltada a estudantes e jovens profissionais, com expectativa de aproximadamente 350 participantes, indica que a renovação geracional é parte relevante da estratégia de desenvolvimento do setor.

Inteligência artificial: mais eficiência, maior responsabilidade
A inteligência artificial já está presente na rotina de empresas e profissionais de eventos. Uma pesquisa realizada pela Universidade IULM em parceria com a Federcongressi&eventi, com participação de 118 organizações, mostrou que 44% utilizavam IA generativa diariamente.
O levantamento também revelou que 77% das empresas consideravam decisivo desenvolver competências digitais, enquanto 70% valorizavam conhecimentos em análise de dados. Além disso, 67% das organizações haviam ampliado suas equipes nos dois anos anteriores à pesquisa.
Na prática, a IA pode apoiar diferentes etapas da produção de eventos, como:
- elaboração de cronogramas e listas operacionais;
- organização de briefings;
- desenvolvimento de propostas comerciais;
- personalização da comunicação;
- tradução e adaptação de conteúdos;
- análise de pesquisas de satisfação;
- segmentação de públicos;
- geração de relatórios pós-evento;
- identificação de padrões em inscrições e comportamentos.
Entretanto, eficiência não deve ser confundida com autonomia total da tecnologia. A IA precisa funcionar como ferramenta de apoio à decisão profissional, sob supervisão humana.
A adoção responsável exige atenção à qualidade das informações, à transparência dos processos e à proteção de dados. Essa preocupação é ainda mais importante em eventos científicos e médicos, nos quais podem ser tratados dados sensíveis relacionados a profissionais, pacientes e pesquisas.
Por isso, além de aprender a utilizar ferramentas, as equipes precisam definir critérios internos para seu uso. Competências como criatividade, pensamento crítico, negociação e relacionamento continuam essenciais — e tornam-se ainda mais importantes em um ambiente no qual tarefas operacionais podem ser automatizadas.
Sustentabilidade precisa sair do discurso
A sustentabilidade deixou de ser apenas um elemento de comunicação institucional. Para patrocinadores, participantes e parceiros, tornou-se necessário demonstrar resultados e compromissos verificáveis.
A agenda ESG aparece como fator de diferenciação para a conquista de patrocinadores e novas oportunidades de negócios. Iniciativas do setor também vêm defendendo compromissos públicos, métricas e estruturas de governança capazes de consolidar práticas sustentáveis com base em evidências.
Para os organizadores, isso significa incluir metas ambientais e sociais desde o briefing. Entre os indicadores que podem ser acompanhados estão:
- emissões relacionadas ao transporte e à hospedagem;
- consumo de água e energia;
- volume de resíduos gerados e reciclados;
- redução de materiais impressos;
- participação de fornecedores locais;
- acessibilidade física, comunicacional e digital;
- diversidade entre palestrantes e equipes;
- impacto econômico na comunidade anfitriã;
- destinação de alimentos excedentes;
- ações de compensação ou regeneração ambiental.
O relatório final do evento deve apresentar esses resultados de forma clara. A mensuração permite identificar avanços, corrigir falhas e oferecer aos patrocinadores evidências concretas do impacto gerado.
A sustentabilidade, portanto, precisa ser tratada como requisito de gestão, e não como ação isolada de marketing.
Congressos médicos exigem equilíbrio entre ciência e experiência
Os congressos médicos e científicos continuam entre os principais motores do turismo de negócios no Brasil. Mais de 60% das captações nacionais de eventos internacionais estão relacionadas a congressos científicos e médicos, segundo a Embratur.
A agenda da Associação Médica Brasileira para 2026 inclui encontros em áreas como reumatologia, medicina legal, nutrologia, oncologia, diabetes e medicina nuclear. O 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral, realizado pela AMB em São Paulo, reuniu aproximadamente 4.200 participantes e cerca de 400 conferencistas, com representação das 54 sociedades de especialidade filiadas à entidade.
O formato combinou conferências, discussão de casos, atividades multidisciplinares, simpósios patrocinados e conteúdos sobre inovação, inteligência artificial, gestão e carreira.
As chamadas arenas silenciosas são um exemplo de adaptação do formato tradicional. Elas permitem apresentações simultâneas, objetivas e próximas do público, ampliando as possibilidades de participação e aprendizagem.
Para os gestores, a tendência indica que o congresso médico precisa ser pensado como um ecossistema. É necessário equilibrar:
- qualidade e responsabilidade científica;
- experiência prática do participante;
- relacionamento com sociedades e entidades;
- interesses de patrocinadores;
- privacidade e segurança da informação;
- transparência e compliance.
O patrocínio também passa a estar mais associado à atualização científica e à experiência do público, e não apenas à exposição da marca.
Instabilidade global exige planos de contingência
Eventos internacionais estão mais expostos a mudanças políticas, conflitos, restrições de mobilidade e instabilidade econômica. Uma pesquisa global da IAPCO mostrou que 59,32% dos respondentes afirmaram que políticas adotadas pelo governo dos Estados Unidos em 2025 e 2026 afetaram sua capacidade de planejar ou executar eventos previstos para 2026, 2027 e 2028.
A informação reforça a necessidade de incorporar riscos geopolíticos ao planejamento. Questões como vistos, regras de entrada, rotas aéreas, câmbio, segurança física e comunicação institucional podem alterar a viabilidade de um evento.
O planejamento deve considerar:
- alternativas de destino e fornecedores;
- planos B e C para palestrantes e delegações;
- opções de participação remota ou híbrida;
- cláusulas contratuais de força maior;
- monitoramento de mudanças regulatórias;
- protocolos de comunicação de crise;
- segurança digital;
- avaliação contínua de custos e deslocamentos.
A gestão de riscos não deve ser acionada apenas quando surge uma crise. Ela precisa fazer parte da concepção do evento, com responsabilidades definidas e processos de atualização periódica.
Dados transformam a captação de congressos
A inteligência de mercado também está modificando a forma como destinos e empresas captam eventos. A ICCA ampliou sua plataforma Business Intelligence, que reúne informações sobre reuniões associativas internacionais, eventos recorrentes, associações, requisitos de venues e tomadores de decisão.
A ferramenta registra mais de 340 mil edições de reuniões, 24,9 mil séries recorrentes e 13 mil associações. Já o ranking ICCA GlobeWatch 2025 foi elaborado a partir da análise de 12.438 reuniões internacionais de associações.
Essas informações permitem substituir decisões baseadas apenas em percepção por uma abordagem mais estruturada. Na prática, os profissionais podem:
- mapear associações com eventos recorrentes;
- identificar os responsáveis pela escolha do destino;
- analisar o histórico de uma reunião;
- verificar requisitos técnicos e de exposição;
- priorizar mercados com maior aderência;
- personalizar propostas de candidatura;
- acompanhar a conversão de contatos em eventos captados.
Uma candidatura mais competitiva é aquela que demonstra conhecer a associação, seus públicos, suas necessidades e o potencial do destino. O uso de dados melhora a precisão da proposta e contribui para uma alocação mais eficiente de tempo e recursos.
Conclusão
O crescimento do mercado de eventos traz oportunidades importantes, mas também eleva o nível de exigência para organizadores e gestores. A operação continua sendo fundamental, porém já não é suficiente.
O profissional de eventos precisa compreender o impacto econômico do setor, utilizar dados para tomar decisões, aplicar inteligência artificial com responsabilidade, estabelecer metas de sustentabilidade e preparar respostas para cenários de risco.
Também deve atuar de forma integrada com destinos, convention bureaus, entidades, patrocinadores, fornecedores e participantes. Essa capacidade de articulação será cada vez mais determinante para o sucesso de congressos, feiras e encontros corporativos.
O novo ciclo do MICE não será definido apenas pelo número de eventos realizados, mas pela qualidade das conexões geradas, pela relevância da experiência, pela capacidade de comprovar resultados e pelo legado deixado em cada destino.
Fontes utilizadas
- ABEOC Brasil. “Mercado de eventos corporativos cresce e reforça papel do turismo de negócios no Brasil.”
https://abeoc.org.br/2026/04/17/mercado-de-eventos-corporativos-cresce-e-reforca-papel-do-turismo-de-negocios-no-brasil/
- ABEOC Brasil. “MICE na mira: Embratur projeta 2026 com foco no Turismo de negócios e eventos.”
https://abeoc.org.br/2026/01/08/mice-na-mira-embratur-projeta-2026-com-foco-no-turismo-de-negocios-e-eventos/
- ABEOC Brasil. “Abertura do Congresso COCAL 2026 reúne representantes de 18 países no Ceará.”
https://abeoc.org.br/2026/07/01/abertura-do-congresso-cocal-2026-reune-representantes-de-18-paises-no-ceara-e-fortalece-alianca-com-a-embratur/
- ABEOC Brasil. “Centro de Convenções Salvador completa seis anos.”
https://abeoc.org.br/2026/01/28/centro-de-convencoes-salvador-completa-seis-anos-e-ja-movimentou-mais-de-r-15-bilhao/
- Federcongressi&eventi. Pesquisa IULM sobre competências e profissões mais requisitadas no MICE.
https://www.federcongressi.it/it/press/ricerca-iulm-le-professionalita-e-le-competenze-piu-richieste-dal-mice/
- Federcongressi&eventi. Programa da Convention 2026.
https://www.federcongressi.it/it/press/convention-2026/
- Associação Médica Brasileira. Agenda de eventos.
https://amb.org.br/solicitacao-apoio-institucional-de-eventos/eventos/
- Associação Médica Brasileira. 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral.
https://amb.org.br/o-cbmg-tornou-se-um-patrimonio-da-medicina-brasileira-afirma-o-presidente-da-amb-ao-encerrar-a-4a-edicao-do-evento/
- IAPCO. Pesquisa sobre instabilidade sociopolítica e a indústria de reuniões e congressos.
https://www.iapco.org/resource/new-iapco-research-global-socio-political-instability-disrupts-international-meetings-and-conferences-industry.html
- ICCA. Business Intelligence e ICCA GlobeWatch.
https://www.iccaworld.org/news/post/icca-business-intelligence-already-essential-now-even-better/
- Portal Radar. Barômetro UBRAFE/SPTuris.
https://portalradar.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Barometro-UBRAFE-SPTuris.pdf
